... Porque, do nada, o nada pode virar alguma coisa!
(Segunda-feira, dia quatro de maio de dois mil e nove, treze horas. Departamento de Música)
Faltava meia hora para começar a aula de Teoria Musical e eu não tinha nada para fazer. Só me restou sentar na frente da sala e esperar... Esperar. Então chegou aquele cara que eu não sei o nome. A gente sempre se cumprimentava e tal (cordialidade dos baixistas). Aparentemente ele também não tinha nada para fazer até a aula começar, pois só alguém numa profunda crise de tédio puxaria conversa comigo. Não é que eu tenha esquecido o nome dele, ele não disse. Nem perguntou o meu, talvez ele seja como eu e siga a filosofia do: “eu não preciso saber o nome de alguém pra ser amigo”.
Tá, eu inventei isso agora, não sigo essa filosofia. Eu sei os nomes de todos os meus amigos, de alguns até sei o nome completo. Acontece que não costumo chamar meus amigos pelos nomes, nem por apelidos, eu nunca sei como ele(a) preferiria ser chamado(a), então um simples “ei” ou toque no ombro sempre funciona.
Chegaram as duas meninas que foram mencionadas no texto anterior (as que estavam do meu lado e não tinham o livro). E, do nada, vieram conversar com a gente... Poxa, elas são legais. E eu pensava que elas não iam com a minha cara. Nessa conversa entre quatro pessoas, dois meninos e duas meninas, a mais nova com catorze anos e o mais velho com vinte [é, eu sei quantos anos o cara tem, mas não sei o nome dele (os nomes das meninas eu sei, claro)], parecíamos amigos de longa data compartilhando suas lembranças da infância. É claro que eu fui o que menos falou, mas pelo menos estava inserido na conversa.
Hoje foi a prova de Teoria Musical, prova é sempre aquela coisa: faz a prova, entrega e sai. Eu tenho que parar com essa mania de fazer a prova tão rápido. Acabo ficando sem ter o que fazer!
(Mesmo dia, aproximadamente umas catorze horas e quarenta minutos. Frente do CAC)
Pessoas simpáticas gritando: “Hoje é o dia do nada, venha fazer nada aqui com a gente!” “Venha chutar o balde!” “Feliz dia do nada!” “Quer uma banana?!”.
Sabe aquelas pessoas que você vê todos os dias, parecem ser super legais e você é doido pra conhecer? Bem, talvez vocês não saibam, acho que nem todo mundo gosta tanto de interagir e conhecer gente nova quanto eu (é uma coisa que eu gosto muito, mas normalmente não consigo fazer, da mesma forma que nenhum homem deixa de gostar de sexo quando fica impotente). Do nada, fui chamado pra chutar o balde e eu não podia perder essa chance.
“--Escreve num papel o nome de quem você quer chutar, joga no balde, grita o nome e chuta pra longe!” O cara de rosto pintado deu as instruções. Uma ótima maneira de extravasar.
Felizmente eu não cultivo inimigos, mas um nome me veio logo à cabeça: “João”. E o bom é que é um nome comum, ninguém vai saber quem foi o João que eu chutei (podem especular).
Depois de chutar o balde, me juntei, e fiquei lá, fazendo nada.
Meus amigos que estavam na aula de Produção de Texto saíram e, é claro, ficaram surpresos de me ver ali no meio daquele povo doido. O fato é que, apesar da timidez, eu adoro fazer coisas que pessoas normais considerariam “mico”. Alguns minutos depois estávamos na partida de Uno mais confusa e desanimada da história.
(Ainda no dia do nada, dezessete horas. Parada de ônibus)
A velhinha sentada do meu lado falou: “Hoje em dia a gente não consegue mais diferenciar os estudantes dos marginais.” É claro que eu não concordei, mas olhando bem para a velhinha, julgando pela forma como estava vestida e a idade que aparentava, dava para perceber que era de um “contexto sócio-cultural” bastante diferente dos estudantes do CAC, e para ela, talvez fosse mesmo impossível nos distinguir de bandidos e traficantes. Mas se ela comentou isso comigo é porque deve ter percebido que, pelo menos eu, não sou marginal. Então eu só dei aquele clássico sorrisinho amarelo, fingindo concordar.
Ela continuou: “Ah, a minha filha se formou aqui, em Enfermagem, faz uns vinte anos. Não era essa esculhambação, não.” Sorriso Amarelo II – O Retorno. Aí a velhinha veio com: “Mas também, olha quem está na presidência...” Política é um assunto do qual eu me abstenho, mas não deixo de ter uma opiniãozinha sobre uma coisa ou outra. E nisso eu discordei totalmente da velhinha, dessa vez não houve sorriso amarelo.
Do lado da parada havia um orelhão onde estava uma menina linda, com tatuagens de flores bem coloridas. A velhinha apontou discretamente e falou, não tão discretamente: “Olha isso, parece uma doida, cheia dessas coisas horríveis, essas roupas estranhas...” O meu ônibus não poderia ter chegado num momento melhor, deixei a velha lá, resmungando sozinha.